Não sei quem fez essa montagem, mas ficou genial!
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
domingo, 1 de janeiro de 2012
As histórias e nós
Para que serve uma história? Podemos dizer que, basicamente, serve para nos informar acerca de acontecimentos passados. Acima de tudo, histórias simplesmente contam, nos trazendo mundos ou nos conduzindo a mundos, reais ou fictícios. Histórias prendem tanto nossa imaginação que o simples contar é suficiente para nos satisfazer. Por isso lemos ficção.
Mas também é preciso aprender com as histórias, afinal, livros são depósitos de conhecimentos, que nunca se esvaziam e enchem a cabeça do leitor. Na aventura do conhecimento, fazemos descobertas e aprendemos a melhor desvendar os segredos do mundo.
Uma boa história é aquela que nos faz pensar, ou que nos convida a pensar. Creio mesmo que este seja o objetivo da literatura: despertar as mentes das suas acomodações. Sim, nossa mente se acomoda, por isso precisamos de livros; eles evitam que “verdades” sejam impostas sobre nós e nos fazem desenvolver a arte de questionar.
Por isso lemos, por isso escrevemos.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Depois do livro
Agora que finalmente vou publicar um livro de contos, preferi extinguir o blog Discovery. Não há mais motivos para que eu continue publicando contos na internet – se tudo der certo, pretendo lançar outros livros de contos ou até um romance.
Todavia, como todo mundo que gosta de escrever, continuarei mantendo um blog ativo (este, o Atlantis). Aqui, escreverei o suficiente para dar sinais de vida aos meus leitores.
Tenho um carinho especial por A bailarina inventora. Apesar de eu pensar em incluir esse conto em algum livro futuramente, ponho-o aqui na íntegra. É necessário.
Todavia, como todo mundo que gosta de escrever, continuarei mantendo um blog ativo (este, o Atlantis). Aqui, escreverei o suficiente para dar sinais de vida aos meus leitores.
Tenho um carinho especial por A bailarina inventora. Apesar de eu pensar em incluir esse conto em algum livro futuramente, ponho-o aqui na íntegra. É necessário.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Resultado duma breve insônia
Quase não consegui pegar no sono ontem pensando no que existiria antes do Big Bang.
Juntei esse pensamento às descobertas de Edwin Hubble sobre a expansão do universo, pensei na possibilidade de o nosso universo ser curvo numa quarta dimensão, imaginei se um dia o cosmo irá mesmo parar de se expandir e começar a recuar. Isso me fez questionar: se o Big Bang é o início de tudo e se o universo recuar até originar um Big Bang pelo inverso, quantos Big Bangs já devem ter ocorrido? Pensei até mesmo na assustadora hipótese de poder o universo não passar de um elétron fechado de um universo bem maior, assim como cada elétron do nosso universo pode ser um universo menor que o nosso.
Depois liguei essas cogitações à Teoria da Relatividade Geral de Einstein, pensei nos túneis abertos no espaço-tempo pela poderosíssima gravidade dos buracos negros e só conclui que precisamos pesquisar mais – a física precisa de muito mais respostas.
Então entrou em cena o LHC e os novos horizontes que essa espetacular experiência poderá abrir à física moderna, como a confirmação da existência do Bóson de Higgs. Cogitei, inclusive, sobre a teoria das cordas, que me fez questionar: será que ela pode nos dar a resposta sobre de onde veio o embrião do universo?
Em seguida, pensei no Papa dizendo curto e grosso “Deus é responsável pelo Big Bang!” e vi que Sua Santidade não faz a mínima ideia do que está acontecendo dentro daquele túnel na fronteira franco-suíça. Quando finalmente todos os dados do grande colisor de ádrons forem decodificados pela população de cientistas do Cern, daremos um importante passo no entendimento desse mistério sobre como do aparente “nada” surgiu uma explosão que deu origem a toda a matéria conhecida e desconhecida. E dizer que “Deus é responsável pelo Big Bang” passará a ser tão obsoleto quanto “a Terra é o centro do universo”. Alguém poderá dizer que o LHC não foi feito para descobrir como do nada pode surgir matéria e, de fato, não foi. O objetivo da experiência, como sabemos, é simular os primeiros instantes do Big Bang, quando, óbvio, a matéria já existia. Mas não duvido que o melhor entendimento dos primeiros segundos do cosmo possa originar uma ponte que nos conduza ao que havia antes de tudo.
O que o leitor acha de nomear ironicamente de Deus essa parte da física que vai tornar claro como do nada pode a matéria surgir? (cheguei a pensar exatamente isso naquela enfadonha noite sem sono) Seria uma justa homenagem a esse personagem criador imaginado pelos homens a tanto tempo!
Aí pensei em ciência e fé, notando que a Igreja se mostra “amiga” da astrofísica – chegando até a dizer que fé e ciência se harmonizam – porque o maior pesadelo dos eclesiásticos são as respostas que explicam o cosmo absolutamente livre da influência de qualquer forma de divindade.
Diante de tudo o que a ciência explica sobre a formação do universo, do Sistema Solar, da Terra, da vida, com os 4,5 bilhões de anos da evolução, do homem e da nossa história, aos crentes que não querem negar a ciência só resta dizer: “tudo isso só aconteceu porque foi a vontade de Deus!” Mas, em verdade, tal argumento religioso não convence cético algum...
Talvez o que mais reconforte os crentes instruídos seja a falta de explicação para o que “criou” os elementos que resultaram no Big Bang. Mas essa falta de explicação está com os dias contados.
O que fazer com Deus quando não houver mais o menor espaço seguro para colocá-lo, quando todos os pontos e mistérios do cosmo forem compreendidos por nós?
Pensei nos que afirmam ser Deus grande demais para a nossa “pequenina” mente, dizendo coisas como “nossa capacidade raciocinativa não é capaz de abranger o infinito, a eternidade que é Deus”. Provavelmente a chegada do sono me fez sentir pena desses que assim pensam, ou melhor, dos que não pensam, pois isso não é pensar.
Pensando sobre o que originou a matéria original, vem à nossa cabeça algo como Deus. Pensando sobre o que originou Deus, vem à nossa cabeça o homem (pois a resposta "Deus sempre existiu" não convence ninguém que tem o costume de pensar). Pensando sobre o homem, voltamos à questão sobre o que originou a matéria original, combustível do Big Bang. Então ficamos andando em círculos! Será que o nosso pensamento, como tudo no universo, está fadado a ser curvo? Assim como não é possível aceitar a explicação de um Deus que sempre existiu (afinal, eternidade não é um conceito científico e pertence apenas à esfera meramente religiosa), do mesmo modo não é possível aceitar a explicação de que o embrião cósmico de repente surgiu do nada que havia até então (ou melhor, do nada que não havia, pois nada não "há"). O certo é que tudo se contradiz quando recuamos nosso pensamento até aqui!
Talvez estejamos olhando para o lado errado quando nos perguntamos sobre o que originou a matéria original; talvez não seja a pergunta certa a se fazer; talvez seja um modo humano de tentar encontrar uma resposta que está acima da concepção humana atual; talvez o fato de estarmos presos a um mundo de 3 dimensões faça com que não consigamos enxergar a realidade plena da física. O que precisamos é verdadeiramente sintonizar nossa forma de pensar com o cosmo, compreender o que o constitui (o LHC é uma grande ajuda neste ponto). Não acredito que estejamos destinados a não compreender o infinito.
A você que até aqui está com a janela do seu navegador aberta neste blog, eu lhe digo: se sua mente não for capaz de abarcar uma coisa, é prova clara de que essa coisa não existe. Seria como somar dois mais dois e querer que o resultado fosse cinco. É possível que dois mais dois seja cinco, diz o crente, eu acredito! Nossa mente não compreende esse mistério, mas é possível; tenha fé. A decisão é sua. Você é quem decide no que acreditar ou não.
Quanto a mim, estou cada vez mais convencido de que não há nada real que a mente humana não seja capaz de entender.
Evoluímos para pensar, para abranger com nossa extrema capacidade mental o que quer que seja. Não existem limites capazes de impedir a marcha do nosso pensamento, nem distâncias, nem imensidões, nem infinitos que não possamos dominar.
O Gênese diz que, no princípio, o homem quis ser como Deus. Está chegando o dia em que de fato o seremos.
Os deuses seremos nós.
Santo clássico - Roma quer santos modernos
No dia 31 de maio de 2011, se completarão 14 anos da morte de Frei Damião, um dos poucos religiosos venerados como santo ainda em vida. Naturalmente , agora, passou a ser um dos candidatos à veneração nos altares. Será um desafio para Roma primeiro beatificar e depois canonizar um frade de santidade clássica, como os inúmeros da Idade Média.
O Vaticano almeja por exemplos de santidade modernos, que de algum modo provem ser possível praticar o catolicismo de cosmovisão contemporânea, inaugurado pelo Concílio Vaticano II, afinal, santos que seguram terço e trajam hábito a Igreja tem pra dar e vender. João Paulo II já disse que a Igreja precisa de santos que usem roupa jeans!
O povo que chama Frei Damião de santo é imenso, porém tem pouca mobilização política; é mais sofredor que atuante; nordestinos esquecidos pelo país, gente que participou das missões do religioso e que ainda carrega a mesma fé do tempo em que ouvia os sermões do capuchinho.
Essas pessoas foram educadas no cristianismo tradicional, que muitos julgavam extinto ou em via de extinção e que, segundo Leonardo Boff, “sobrevive na experiência religiosa do povo e encontrou em Frei Damião seu santo, seu profeta e seu analista transcendente.” Por isso os progressistas classificam o religioso de “ultrapassado”.
Ainda de acordo com o conceito do teólogo acima citado, diante do pensamento do novo cristianismo de cultura moderna, o povo da tradição não tem vez, perde sua identidade, não encontra valores.
Podemos dizer que o silêncio da maioria das lideranças religiosas e dos teólogos para com o exemplo de santidade do grande peregrino reside, no fundo, nisso: eles não se identificam mais com aquele tipo de cristianismo nem com seu portador, as camadas populares. Eis o maior obstáculo à canonização.
Não duvido que Chiara Lubich, por ter estado muito mais perto do Papa e por ter sido progressista, provavelmente seja canonizada antes do nosso Frei Damião, mesmo tendo morrido 11 anos depois do capuchinho.
Mas uma coisa não deixo de pensar: se Frei Damião não for canonizado, não sei o que é um santo. O Vaticano já canonizou pessoas “menos santas” que ele!
Se ainda fosse o povo que proclamasse os seus santos, o capuchinho já estava canonizado desde muito antes de falecer – sabemos que incontáveis milagres foram atribuídos a ele quando vivo.
Apesar de tudo, creio seguramente que Roma não vai deixar de canonizá-lo, pode ter plena certeza disso, nem que seja daqui a trezentos anos.
Posso dizer que eu, André Hilton, e milhões de outros nordestinos, tivemos contato direto com um santo da Igreja Católica quando ainda viva, ou melhor, vivo. Em Santa Cruz do Capibaribe (no tempo do Pe. Bianchi Xavier), acompanhei muitas missões suas quando criança; fui até tocado por sua pesada mão sobre a minha cabeça num dia em que ele me abençoou, na igreja de São Cristóvão. Lembro desse momento como se tivesse ocorrido ontem.
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Referência bibliográfica: OLIVEIRA, Gildson. Frei Damião: o santo das missões. São Paulo, FTD, 1997. p. 140-141
A destruição de uma cidade
Publicado por André Hilton originariamente no blog Discovery, em 23 de junho de 2010
As águas não baixam
Certo dia, eu disse que desejaria estar vivo para ver o fim do mundo, e o que nesta semana vi corresponde a um Apocalipse a nível regional. Não foi o fim da humanidade, do planeta, da natureza. Foi o fim duma cidade. Talvez fim seja uma palavra, além de curta, não muito precisa. O que presenciei foi uma destruição, um ensaio para o fim. O que é destruído, pode ser reerguido, mas o fim não tem remédio; portanto, adotemos de vez o termo destruição.
No blog Atlantis, relato o início da catástrofe, os primeiros episódios do que se tornaria um marco na história do pobre município palmarense. Tudo começou na tarde do dia 18 de junho, sexta-feira. As águas do rio Una invadiam as ruas do centro da cidade. Pouco depois escrevi O Una mostra mais uma vez do que é capaz. Chegada a noite, já se podia dizer que a maior cheia da história estava assolando a cidade. Pelas 22h00, nós do Santa Rosa começamos a nos preocupar, pois a água invadia a Rua Deputado Alcides Teixeira com uma intensidade bem maior que a sucedida na enchente de 2000. Às 23h00, fui olhar o Una na esquina da Avenida José Américo de Miranda – que já estava inteiramente submersa –, na entrada da cidade. Ninguém dormia, as ruas estavam cheias de gente, todo mundo apreensivo, assustado, admirado, surpreendido, era o que os olhares diziam. Voltei para casa às pressas, tive notícia de que a água começava a chegar à minha rua de maneira preocupante. Enquanto andava, os postes se apagaram, a eletricidade se foi, o escuro veio, tomando conta das ruas. Avistei flashs azulados no céu, como relâmpagos, mas eram os transformadores entrando em curto.
Mariana e principalmente Claudivã, seu namorado, entraram em pânico com a subida da água e nos forçaram a corrermos todos para outro local, abandonando a casa. Foi o que fizemos. Lanternas e faróis de carros iluminavam precariamente as ruas escuras. Caminhávamos nas trevas e sabíamos que estávamos no inferno. Primeiro, ficamos na casa da mãe de Cícero e, depois, na de Suelângela, onde passamos a noite até o dia amanhecer. Micke, meu cachorro, esteve o tempo inteiro conosco.
Noite sem fim
No começo da madrugada do dia 19, a água surpreende a expectativa de todos os moradores do bairro Santa Rosa e inunda metade da Rua Laboratorista Manoel Leite (e muitas outras) no trecho onde moramos, chegando à nossa residência muito felizmente com pouca intensidade, alcançando não mais que 15 centímetros de altura dentro de casa. Esta, com a igreja à frente, estava na extremidade do alcance da inundação, que se estendia daí para a esquina sul, onde a água atingiu profundidade bem maior.
A noite inteira foi passada à luz de velas e lanternas. Meu pai, o pai de Suelângela e eu erguemos para cima de mesas, cadeiras e camas a maior parte da mobília de casa, pouco antes de a água invadir os cômodos.
A única rádio que funcionava era a Cidade FM (frequência 87,9). A Quilombo (que foi destruída na catástrofe) e a Cultura estavam fora do ar. O assunto conversado pelo locutor era a cobertura da enchente, na qual as únicas informações de fato importantes eram a subida constante da água e, mais tarde, sua descida constante, iniciada por volta das 03h00.
Ainda na noite de sexta-feira, as duas pontes da BR 101, em processo de duplicação, vieram abaixo, como cartas de baralho, por conta da força da correnteza. Uma dessas pontes havia sido construída há menos de um ano e, a outra, fora totalmente reformada. Nessa noite sem fim, não preguei os olhos um segundo sequer. Ficamos todos em vigília na casa de Suelângela. Vi o sol se pôr sobre uma Palmares que estava afundando, e nascer sobre uma Palmares afundada.
A enchente do ano 2000 foi brincadeira de “gu-gu-dá-dá” comparada a esta. Residências do centro que há dez anos tiveram apenas o térreo coberto pela água, dessa vez foram invadidas um ou dois metros acima do piso do primeiro andar. Os ocupantes das casas invadidas imaginavam que esta enchente seria menor que a de 2000 ou, no máximo, igual. Mas foi superior. Presenciei, enquanto passeava pelo início do caos na tarde do dia 18, pessoas dizendo, às vezes em tom de brincadeira: “Essa vai ser maior que a outra!” Nunca pensei que tivessem tamanha e tão exata razão.
Antes das águas cobrirem por completo as lojas, muitos saques foram feitos, os bandidos, experientes desde a última enchente, não iam deixar tão valiosa oportunidade passar em branco.
As águas baixam
A manhã inteira do sábado (19) foi dedicada à limpeza da nossa casa. Quando nela chegamos, às 05h15, havia grande quantidade de entulho trazido pela cheia na calçada e ao pé do portão, que estava repleto de caramujos de todos os tamanhos. Boa parte da água, misturada com lama, ficou presa dentro de casa. Fizemos a limpeza sem o uso de botas (com exceção do meu pai). Eu mergulhava os pés naquela água extremamente contaminada. Mas não tinha outro jeito: tinha de mergulhá-los. Por volta das 09h00, a energia elétrica voltou. Ligamos a bomba, e a água do poço nos ajudou bastante. O serviço de água encanada do SAAE está impossibilitado de funcionar, com todo o presente caos.
Depois de limparmos a casa (não completamente, apenas tirado a lama do chão) fomos olhar o local da queda das duas pontes que atravessavam o Una para a BR 101 passar. Longa fila de caminhões se estendia na rodovia, impossibilitados de seguir viagem; habitantes dos bairros Newton Carneiro, Nova Palmares e Santa Rosa se infiltravam entre o engarrafamento. Perto de onde estávamos, bem ao lado de um dos postos de gasolina, um helicóptero de resgate pousou para abastecer.
Pela tarde, fui olhar as principais ruas inundadas (a água já havia baixado um pouco, sendo possível tomar o bairro Santa Luzia, único caminho por onde podíamos seguir para ter contato visual com o centro). Na Travessa Altino Fraga, era incessante o fluxo de veículos que descia da Rua Manoel Braga. Quase não consegui atravessar a fila. Peguei a ferrovia e, pelos trilhos, fui até à antiga estação. De lá, tive os primeiros contatos com a enchente. As águas tinham baixado bastante, mas ainda estavam acima do nível mais alto que alcançaram dez anos atrás. Tanta gente trafegava pela linha do trem, ao lado do Santo Onofre, que era impossível caminhar rápido. O ritmo dos passos era devagar quase parando. No Alto do Inglês, encontrei minha mãe e meu pai, que estavam com Mariana e minha avó. Vieram, como eu, olhar a inundação. A ladeira é o melhor ponto para se observar as cheias que de vez em quando destroem a cidade, por isso, vira camarote em todas as enchentes. De lá, seguimos, ainda, sempre pelos trilhos, até o pontilhão que atravessa a Avenida Frei Caneca. Em todos esses locais a multidão era uma só, admirando a destruição da própria cidade. Sem interrupção, helicópteros da Defesa Social de Pernambuco sobrevoavam as ruas, resgatando pessoas ilhadas. Os bombeiros tripulantes conduziam a vítima para dentro de uma cesta pendurada por um longo cabo abaixo da aeronave. Enquanto isso, na água, outros bombeiros, usando botes inflados, resgatavam gente ilhada em áreas mais acessíveis. Um helicóptero das forças armadas também prestava assistência. Tinha um motor de um barulho que, igual, eu só tinha ouvido no cinema.
O Campo da Rede e o Barreto Hall, ambos no Santa Luzia, ficaram funcionando como aeroportos dos helicópteros de resgate. Era onde as vítimas pousavam para receberem assistência médica se preciso. A população formava verdadeira plateia enquanto acompanhava de perto o incessante pouso e decolagem das aeronaves, veneradas pelo público como deuses. Para um povo carente de vida cultural, o espetáculo da chegada aérea de vítimas era o melhor de todos os teatros.
A face da desolação
Eu nunca havia presenciado a destruição de uma cidade. Acompanhei a enchente de 2000, mas, como já disse, aquela não passou de uma brincadeirinha da natureza. Esta deste ano fez o que bombas lançadas de aviões fariam. Bombas potentes, devastadoras! Quando, na tarde do domingo (20), saí com minha mãe, pés calçando botas, para visitar os locais que ficaram embaixo d’água, a sensação imediata que tive foi de visitar uma cidade atingida por forte terremoto ou bombardeada. O que teimava em nos lembrar que toda aquela devastação foi provocada por água era a lama negra que o tempo inteiro pisávamos e que, em algumas ruas, já virava poeira. Postes tombados por todos os lados, vários deles partidos, fios espalhados pelas ruas, os que ainda estavam no alto encontravam-se repletos de entulho neles dependurados. As ruas estavam quase intransitáveis para os pedestres. Em verdade, não se pode falar de pedestres, éramos visitantes de um mundo desconhecido. Casas destruídas inteiramente tinham suas paredes espalhadas pelo meio das ruas, cujo asfalto de quase todas teve boa parte arrancada do chão, formando grandes buracos em diversos lugares, alguns tão profundos que chegavam a comprometer a estrutura das casas que restavam de pé. Árvores arrancadas, quase enterradas em entulho, lama e areia. Em muitas ruas havia verdadeiros bancos de areia, trazidos e moldados pela correnteza. Carros novos destruídos, motos parcialmente enterradas em destroços, roupas, geladeiras, manequins de lojas, coisas de farmácias, tudo isso se via pelo caminho. Parte do madeirame do telhado de casas estava preso em árvores, que também tinham entre os galhos mesas e traves enormes. Ruas por onde sempre andei estavam irreconhecíveis, quem nunca as viu antes e visse uma fotografia delas, não acreditaria serem as mesmas. A biblioteca municipal foi o primeiro local que determinei para visitar. Fiquei feliz por vê-la no lugar onde sempre esteve e, principalmente, inteira. Tomara que os livros tenham se salvado.
Quando cheguei em frente a prefeitura, procurei a Praça Ismael Golveia e tomei tremendo susto quando percebi que ela simplesmente desapareceu e, no seu lugar, só restou uma colossal cratera, cheia de água na parte mais funda, onde se via um caminhão submerso de ponta cabeça, apenas com as rodas descobertas, e alguns outros carros menores também tragados pela abertura. Importantes estabelecimentos palmarenses desmoronaram por inteiro, tais como a AABB, a ACP, o colégio Fernando Augusto Pinto Ribeiro e a escola Peter Pan. Numerosas famílias perderam tudo. Muitos, achando que a água não iria atingir o primeiro andar, puseram aí seus pertences, mas a enchente chegou a cobrir prédios inteiros. As ruas de maior devastação, com maior número de construções desmoronadas, foram a Rua Capitão João Galdino, Avenida Visconde do Rio Branco, Rua Ascenso Ferreira, Avenida José Américo de Miranda, Rua Conselheiro João Alfredo, Rua Ulisses de A. de Oliveira e praticamente todas as ruas da parte do centro conhecida por Pedreiras. Essas são as que se situam mais próximas ao rio e, por isso, as que enfrentaram maior correnteza quando a água as invadiu.
A cidade se acabou completamente, sem exageros literários, como Pompeia, Porto Príncipe, Atlântida.
Alarme falso
Por volta das 17h00, no exato instante em que a Seleção da Costa do Marfim fez seu único gol no jogo contra a nossa Seleção, segunda rodada da Copa do Mundo, nesse exato instante a cidade de Palmares inteira – ou o que dela sobrou – entrou em pânico com o falso alarme de que a Barragem do Prata havia estourado. A gritaria em todas as ruas era total, gente desesperada correndo a puxar os cabelos, chorando, pessoas idosas sendo carregadas nos braços, motos em alta velocidade pelas calçadas, engarrafamentos com motoristas impacientes buzinando forte, pneus ciscando. E, em meio a tudo, a multidão correndo, todos se dirigindo a lugares elevados. Daqui de casa corremos todos também; saí levando Micke na coleira; minha irmã saiu chorando, levando um saco de roupas preparado de improviso; minha mãe saiu com o lorinho na gaiola; minha avó correu com uma caixa de sapatos onde guarda documentos importantes; meu pai acreditou na história, mas eu não. O tempo todo eu sabia que as pessoas tinham entrado em pânico levadas pela conversa de um boato, as rádios diziam sem parar que não existia nenhuma informação oficial, senão os primeiros a serem contactados, caso fosse verdade, teria sido os órgão da imprensa. Mesmo assim, corremos, junto com a multidão desesperada, para uma colina do nosso bairro e, na esquina da creche do Pe. Ângelo, iniciamos a subida. Alguns estavam tão nervosos, como o namorado da minha irmã, por exemplo, que chegavam a ver, imaginando, a água invadindo as ruas, o que os fazia correr ainda mais. Esse momento foi idêntico à cena do filme Impacto Profundo, onde Leo Biederman e Sarah Hotchner sobem uma colina para se protegerem da devastadora enchente provocada por uma onda gigante. No resto da cidade, pessoas morreram de infarto causado pelo medo, outras sofreram ferimentos. Ficamos algum tempo sentados numa calçada acima da Rua Rui Barbosa, até todo o povo se convencer do alarme falso e voltar para suas casas – quem ainda as tinha.
Vou terminar este relato falando do Cine Teatro Apolo. Sim, foi destruído mais uma vez. Tão ansioso que eu estava para assistir a uma peça nele!...
A ISS e eu
Publicado por André Hilton originariamente no blog Discovery, em 02 de dezembro de 2009.
Eram 18h04. O sol tinha acabado de se pôr, mas o céu não estava de todo escuro. Duas luzes seguravam o resto do azul que começava a se dissipar com a vinda da escuridão da noite: uma era o crepúsculo, tomando conta de metade da abóbada; a outra era a lua, a imitar no leste o que o crepúsculo fazia no oeste. Era um início de noite todo iluminado pela natureza. Começavam a aparecer as primeiras estrelas. Não havia a menor nuvem. Quis o céu inteiro ser cenário perfeito para a passagem de tão importante personagem. Precisamente na hora esperada, ela entra em cena. 18h05. Ela desponta no norte, brilhando como se irradiasse luz própria. Vistos daqui de baixo, seus 27.700 quilômetros por hora são um simples caminhar elegante na longa passarela celeste. A atriz agora passa a ser modelo, desfilando num cenário todo seu. Onde ela está não tem ar, portanto passa sem deixar o menor ruído. Está cruzando o céu, chega ao zênite, inclino a luneta ao máximo. Por um instante, tiro os olhos da ocular – quero vê-la a olho nu. É encantadora, brilha mais do que Vênus. 402 quilômetros separam-na da minha cabeça. Ela não me vê, mas não me importo com isso: ela é o ídolo, eu sou o fã, cada um deve ficar em seu lugar. E continua desfilando no céu, vai-se para o sul, seu brilho parece se intensificar mais ainda. Aproxima-se do horizonte, parece que parou, será que virou uma grande estrela, a mais brilhante do céu? Não. Ela está cruzando todas as fronteiras, indo além do horizonte.
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