quinta-feira, 8 de julho de 2010

Parodiando o Gênese


    Hoje eu estava conversando com minha mãe sobre a correria de toda a população quando pensamos que havia estourado a barragem do Prata, e nessa conversa percebemos uma peculiar anedota que pode ser feita com relação à igreja Arca de Noé (foto), particularmente no contexto do corre-corre mencionado.
    Naquele dia, veio a notícia de que um dilúvio inundaria (outra vez) a cidade inteira, e todos deviam procurar abrigo, pois o tempo era curto. Pegamos nossos animais e corremos de casa, rumo à primeira colina avistada. Mas esse não foi o melhor itinerário se quiséssemos seguir os ensinamentos bíblicos – deveríamos, sim, ter corrido para a arca de Noé, afinal, ela se encontra atracada bem perto da nossa residência, e como íamos levando animais...
    Meu pai é que se encaminhou à arca logo depois de saber do dilúvio vindouro: ao lado da embarcação (ou igreja!) é que bombeiros montaram acampamento, por isso ele foi lá saber se a notícia era verídica. Voltou correndo ainda mais quando os bombeiros disseram que podia ser.
    Então, fica a lição para os moradores do bairro Santa Rosa: no próximo dilúvio, abriguem-se na arca – do próprio Noé.

Na hora das refeições

    Sou um perigo numa mesa de refeições. Se vou colocar feijão no prato, metade cai fora. O mesmo acontece com o arroz. Se é macarrão, espalho-o pela mesa e o que consegue cair no prato fica pendurado para fora. A carne é preciso segurá-la bem, com o garfo, quando a estou cortando, senão ela vai parar longe. Outro dia quase fraturei o crânio de um amigo quando arremessei, sem querer, um pedaço de carne desgovernado sobre sua testa. Por falar em garfo, sempre os entorto quando os uso. Se você gosta dos seus garfos, não os empreste a mim. Caixas de leite, não sei dominar. Em minhas mãos, parecem mangueira de bombeiro, esguichando líquido branco. Diferentemente do feijão, o leite nunca acerto no alvo. Caso o conteúdo da caixa consiga cair dentro do copo, sai com tanta força que logo se espalha por todos os lados, sujando a mesa e tudo ao redor. Faz pouco tempo que, numa elegante pizzaria, derramei um copão de milk shake na calça – até as meias se lambuzaram. Se ponho manteiga numa bolacha, logo ela cai no chão com a parte da manteiga virada para baixo – já estou acostumado a apanhar do chão as comidas que derrubo e imediatamente engoli-las. Se encho a boca de espaguete, há os que ficam pendurados para fora, difíceis de sugar, e logo caem sobre minha camisa basta o mínimo movimento com a cabeça. Bolo, em minhas mãos, vira pó. Se como cachorro quente, oitenta por cento dele se desmancha no chão. Sempre me engasgo com sucos de frutas ácidas, como limão.
    Depois de tudo isto, não preciso nem dizer que não sei cozinhar. Tentei fritar um ovo uma vez e quase incendiei a casa.
    Eu me esforço por dominar a comida, mas ela me odeia. Sou uma espécie de repulsor de alimentos, como se estes fossem a polaridade positiva de um ímã se encontrando com a polaridade positiva do ímã que sou.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A verdade na boca do PC Siqueira

    PC Siqueira chega a ser genial no que fala em alguns dos seus vídeos. Neste abaixo (dividido em duas partes), ele faz uma reflexão realisticamente brilhante, que também representa a totalidade da minha opinião sobre o tema. Poucos conseguem dominar essa forma de nos trazer a pura face da realidade, falando com uma sinceridade que aposto ninguém ainda ter visto tanta antes de assistir a esse vídeo. Parece até que o PC está a se confessar diante dum padre – muito embora não haja confissão tão reta e sincera como esta que você verá.

domingo, 4 de julho de 2010

O que aconteceu


02 de julho de 2010

    Não vou começar com introdução, a data de hoje vale muito bem como uma. Todos sabem o que neste dia aconteceu e a imprensa já dissecou até a alma do assunto, não bastando o corpo. Aqui vai uma breve opinião minha sobre o tema.
    Desconheço se a Seleção Brasileira tem uma equipe de psicólogos, assim como tem uma de preparadores físicos. Se não tiver, precisa ter. Se tiver, deve ser mais valorizada. Tínhamos tudo para ganhar o jogo e a Copa, fomos os absolutos dominadores no primeiro tempo e um pequeno tropeço emocional do time bastou para alguns dos melhores jogadores do mundo perderem de vez todas as suas qualidades.
    Confiar apenas na experiência profissional dos titulares não é o bastante: especialmente numa partida conhecida por “mata-mata”, eles precisam saber driblar as pressões; saber de antemão, por meio da ciência aplicada, como se comportar caso as coisas mais imprevisíveis venham a acontecer. A poderosa indústria que é o futebol tem capacidade para desenvolver profundas técnicas de treinamento mental que permitam o jogador usufruir ao máximo o que é capaz de fazer. As chamadas “mal fases” de grandes craques são consequência dessa carência de treinamento mental. Será que esse medo de inovação científica caminha junto com o medo que a Fifa tem de aplicar tecnologia no auxílio à arbitragem?

***

PS.: Repudio a conhecida hipocrisia que muitos brasileiros ostentam quando a Seleção perde, dizendo eles que acharam bom o resultado, que estavam torcendo para a outra seleção ou outro tipo de conversa fiada.

Aluga-se

    Aluga-se uma casa no renomado bairro São José, Palmares-PE. Doze quartos, sete salas de estar, quatro salas de jogos, três salas de janta, duas cozinhas, quinze banheiros, duas copas, dois corredores onde se pode brincar de corrida de motos, oito varandas com portões banhados em prata, que dão para um grande alpendre. Nove garagens, quatro das quais são subterrâneas e duas com capacidade para abrigar grandes caminhões. Todas têm portão automático. A casa fica dentro de amplo terreno, amurado com cerca eletrificada, cheio de árvores e três enormes jardins, espelhados no modelo dos jardins do Vaticano. Conta com três piscinas olímpicas, quiosques e duas quadras. O aluguel custa R$ 10,00 por semestre. Infelizmente, não dá para fazer preço menor.
    Aluga-se uma casa no bairro Nova Palmares, próximo à caixa d’água. Três metros quadrados, uma porta, apenas duas goteiras e piso de terra batida pelo melhor batedor. As quatro paredes de taipa provaram resistir a chuviscos. O local conta com a melhor vista para a cidade e para os canaviais. O aluguel custa somente R$ 2.500,00 a diária. Aproveite enquanto estamos em promoção.

Versos

02 de julho de 2010

    Ontem fui ao centro da cidade reclamar da mudez dos telefones no Santa Rosa. Mesmo no dia da simulação do Apocalipse e na semana subsequente à catástrofe, as linhas telefônicas do bairro não apresentaram o menor problema. Mas, desde segunda feira, aparelhos fixos de várias residências estão funcionando exatamente como se estivessem desconectados da tomada.
    Só que, quando cheguei ao centro e me deparei com toda aquela desolação, lama em todas as ruas, fios e postes ainda no chão, lojas parecendo cavernas úmidas e escuras, montes de lixo por todos os cantos, tratores tentando limpar as ruas, gente – provavelmente faminta – catando o que sobrou dos alimentos de supermercados, buracos, engarrafamentos, caos, quando com tudo isso me deparei, o sentimento de piedade foi o único que restou em mim. Tirei do bolso os cinco centavos que levava e o depositei na palma da mão aberta da cidade.
    Pelo que ouvimos aqui em carros-de-som e rádios, a terra dos poeteiros escolheu os seguintes versos para retratar sua atual situação:

Senhor, consolai os que choram
Curai os que sofrem
Nas ruas, nos guetos
Nos becos escuros
Na chuva, no frio, sem teto e sem pão.

    Além desses acima, esses abaixo também retratam bem o que vemos:

Uma esmola pelo amor de Deus
Uma esmola
Meu! Por caridade
Uma esmola
Pr'o ceguinho, pr'o menino
Em toda esquina
Tem gente só pedindo...
Uma esmola pr'o desempregado
Uma esmolinha
Pr'o preto pobre doente
Uma esmola
Pr'o que resta do Brasil
Pr'o mendigo, pr'o indigente...

Estática situação

28 de junho de 2010 *

    O que fazer numa cidade arruinada? Não existe lojas onde possamos comprar seja lá o que for diferente de comida. Não há o mínimo lugar para recreação. Onde quer que vamos, pelo caminho só se encontra lama. As escolas não mais funcionam. O comércio parou. É quase como viver num sítio, distante do mundo urbanizado. Minha sede de leitura era abastecida pela biblioteca municipal. Agora, nem sei se os seus livros sobreviveram. Estou apenas relendo algumas coisas que tenho em casa, como a Antologia Poética de Drummond e alguns capítulos de Anjos e Demônios, de Dan Brown. Não posso fazer pedido de livros novos porque o Correio desceu na cheia. A saída é a internet, quando funciona. Já li quase toda a Wikipédia, rodei o mundo inteiro no Google Earth, vi tudo o que é de clip de Paramore e Evanescence no YouTube, esquentei meu inglês, meu espanhol, até arranhei um pouco de italiano. Mas não me permito ficar muito tempo na frente do computador. Para se ler e se escrever é que o papel foi inventado.
    No mais, tudo ao redor, fora de casa, está sem vida, num estado de morte caótica. O céu fechado, o que é natural em pleno inverno.
    Hoje o rio resolveu invadir a cidade (ou ruínas) de novo, porém, sem intenções maléficas, quis apenas lembrar que as construções encontram-se bem dentro dos seus domínios e brincar um pouco, sujando de lama os locais que já foram limpos. É um rio de pitoresca personalidade; admiro-o muito!
    Depois do que os palmarenses vivenciaram semana passada, podemos dizer que a enchente de hoje foi banal. Nem chegou a ser muito comentada entre a população, mesmo tendo sido quase igual à então “devastadora” de 2000. O fato de não mais haver o que evacuar ou ser destruído contribuiu para a pouca atenção dada a esta segunda invasão das águas. No entanto, uma cheia significativa dias após a que acabou com tudo é um evento raro na bacia do Una e sem precedentes na cidade.
    Não vou dizer que não é bonito o espetáculo do rio tomando conta das ruas. Acompanhei a invasão de hoje – assim como a da semana passada – e me encantei com a força da natureza.
    O vídeo abaixo foi feito hoje pela manhã e mostra importantes ruas da cidade.



* Data em que este texto foi escrito. Sua publicação se adiou por conta do não funcionamento da internet, problema causado pelo caos na cidade desestruturada.