sexta-feira, 17 de junho de 2011

Uma anotação

    Esta semana, enquanto eu estava estudando o Parnasianismo brasileiro, fiz uma anotação um tanto singular, e só notei a sua singularidade quando a li uma segunda vez. Foram umas rápidas palavras que escrevi dirigidas a mim mesmo:
    De toda a literatura, os poemas parnasianos são os mais fáceis de compreender por conta da opção que os autores adotaram de compô-los descritivos, objetivos e não-sentimentalistas. Desse modo, caro André, seu idiota, procure ler toda a obra de Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e, principalmente, Olavo Bilac.
    Publiquei isto em meu blog apenas para me servir de lembrete, pois se deixasse essas minhas palavras na folha de anotações, elas se perderiam entre as outras anotações. Se, ainda assim, eu não lembrar, alguém, por favor, me lembre de ler toda a obra de, pelo menos, Olavo Bilac.

Um soneto camoniano

Dedico esses versos de Camões à menina que amo.

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;
D’alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Sobre enchentes, outra vez


    Nada de interessante vem acontecendo ultimamente por aqui, exceto algumas enchentes que estão voltando a infernizar a vida dos habitantes da Zona da Mata pernambucana. Não há nada de novo nelas – são mera repetição do que ocorreu há menos de um ano, talvez com uma quantidade de água menor, mas é uma reprise.
    Lá em Palmares, o centro da cidade deveria ser desmontável, para que os empregados das lojas e dos supermercados tivessem o trabalho de evacuação e esvaziamento dos estabelecimentos facilitado. A água toma conta da cidade com uma simplicidade que só a natureza tem. Lembro da enchente do ano passado sempre que vejo um cano estourado na rua ou um pouco de água empoçada perto do meio-fio, isso porque é assim que uma enchente nasce: primeiro, a água vai empoçando-se nos recantos das ruas; depois, começa a cobrir o asfalto ou o calçamento, inofensivamente, igual ao que acontece em qualquer chuva forte, os carros passam sem problema; poucas horas depois, começa a tomar conta do interior das residências e lojas, semelhante a um balde de água barrenta derramado de fora para dentro pela brecha inferior da porta, molhando o piso. Mais algumas horas se passam e a água está cobrindo o teto das casas, invadindo o primeiro andar, arrancando os semáforos, partindo postes ao meio, derrubando construções, levando carros que permaneceram estacionados. A correnteza passa dentro da cidade como um tsunami.
    Nesta semana, Palmares chegou a ficar em terceiro lugar nos trend topcs nacionais do Twitter. Isso demonstra a solidariedade dos brasileiros para com aquela cidade sofredora, que vê no próprio rio que a corta o seu maior pesadelo. Pouquíssimas pessoas em Palmares usam o Twitter e, mesmo se muitas o usassem, no dia em que a cidade foi trend nacional, ela estava sem internet e sem energia elétrica. Foram as pessoas do resto do Brasil que falaram em Palmares por um tempo.
    Eu ia escrever sobre nada, como vistes no início do primeiro parágrafo, afinal, faltando novidades, o jeito é escrever sobre a própria falta de inspiração. Entretanto, no meio da redação, surgiu esse tema das enchentes. Pelo menos o primeiro texto deste mês saiu.

sábado, 2 de abril de 2011

Diante do quadro


    Tenho uma reprodução deste quadro na parede do meu quarto. Família de Camponês (1643), de Louis de Nain. Todos os dias medito apreciando cada rosto nele, cada olhar, cada traço, cada cor, cada forma. É quase como se a meditação em torno dessa obra fosse minha oração diária. Esse quadro me faz pensar sobre a humanidade e o mundo; me faz sentir o muito e o pouco, abarco as grandezas e as insignificâncias, penso na vida e no futuro dela, no que cada homem faz no mundo, na nossa sociedade, no porquê de existirmos.
    Extraio dele mais religiosidade do que da própria cruz de Cristo. A cruz é só um símbolo, indiscutivelmente ainda o mais forte de todos os símbolos. Mas esse quadro supera a cruz ao nos fazer viajar pelo mundo do simples, sem exaltações de espírito, sem batalhas religiosas, sem morte para que haja ressurreição, apenas simplicidade, paz.
    Em cada rosto dessa família retratada podemos ver os rostos que há dentro de nós mesmos: o rosto da inocência, da experiência que o tempo concede, do medo, da determinação, da tristeza, da alegria, da melancolia, dos sonhos, da esperança.
    É um espelho da nossa consciência. Diante dele, como um raio-X que passa através da pele, tudo o que a ambição nos fez alcançar é apagado, ficando apenas aquilo que nós não demos a nós mesmos, pois sempre esteve dentro de nós. Vemos o núcleo secretíssimo do nosso ser, o mais puro de nós próprios. Por isso, estar diante desse quadro requer coragem, e penso que não é todo mundo que vai querer contemplá-lo mais de uma vez. Ou talvez você se vicie nele e nunca mais consiga viver sem olhá-lo todos os dias, como aconteceu comigo.

terça-feira, 22 de março de 2011

Chegou água!


    Chegou água na tarde deste sábado lá na Vila do Oscar. Mas como os canos da rua não são muito acostumados a ter água correndo dentro deles, quase todos estouraram. Pareciam gêiseres!
    Os moradores, além de encherem tudo o que é de cisternas, tanques e baldes, não permitiram que tanta água se desperdiçasse à toa: conectaram mangueiras nos canos estourados e as penduraram nas algarobas. Não preciso nem dizer para que fizeram isso... Para tomar banho!
    Alguém abriu a mala de um carro e ligou o som em todo volume. Outros armaram mesas de bares perto das mangueiras, depois trouxeram cerveja, começaram a assar carne... Foi uma festa! Banho e cerveja!
    Santa Cruz do Capibaribe e região sempre enfrentou o problema de escassez de água, o que é natural em cidades construídas num ambiente seco. A escassez não se iguala à enfrentada pelos habitantes do vasto sertão nordestino, mas é o suficiente para os santacruzenses verem numa forte chuva o maná dos céus. Por isso, quando acontece de a chuva cair de uma só vez, em todas as ruas encontramos gente tomando banho nas bicas das casas, correndo pelas calçadas, feliz por estar ensopado.
    Um povo desses nunca vai negligenciar um cano estourado!

terça-feira, 15 de março de 2011

A arte do desenho 3D

    Caro leitor meu, que, por isso mesmo, se destaca na prática da ascese ao exercitar a virtude da paciência. Tenho demorado a postar porque resolvi me aprofundar na computação gráfica, poderosa área do mundo digital que nos possibilita dar a forma física, em três dimensões, a tudo o que nossa mente for capaz de imaginar.
    Dediquei tanto tempo ao estudo do Blender que neste mês de fevereiro só li dois livros, dois míseros livros de pouco mais de quinhentas páginas. O resto do tempo livre entreguei à dissecação do programa.
    Foi um estudo profundo, intensivo, afinal, desenho 3D é uma verdadeira ciência (alguns se dedicam exclusivamente à iluminação, outros exclusivamente à modelagem, outros à textura), mas finalmente aprendi todas as técnicas essenciais e já posso fazer as ilustrações que me der na telha. O que não aprendi ainda foi a experiência, que só o tempo concede – mas isso não importa, afinal, não pretendo ser modelador digital para sempre.
    É inacreditável como a computação gráfica evoluiu rápido, de modo especial num software livre como o Blender!
    Dominando a técnica, pude fazer algumas ilustrações para As Aventuras dos Mendigos Viajantes (um conto meu).


A cápsula

















O balão


























Agora me dê uma esmolinha, por favor.

quarta-feira, 9 de março de 2011

A beleza das pedras

    Nesta segunda-feira, aproveitando o feriado de carnaval, fui dar uma volta por alguns pontos daqui da região, indo de encontro à vasta natureza que por aqui se vê.
    Quando digo vasta natureza, refiro-me às serras, colinas, planícies e, principalmente, às pedras. Assim como as nuvens encantam a muitos com suas formas que lembram as mais diferentes figuras, do mesmo modo as pedras despertam minha imaginação. Algumas me fazem ver figuras de pássaros, peças de máquinas, formas arquitetônicas, pessoas, etc. O topo de muitas das serras é inteiramente constituído por uma única pedra do tamanho de outras serras.
    Essa foto abaixo foi feita nas proximidades de Toritama, cerca de 3 quilômetros da BR-104, em cima de uma colina de pedra. O único defeito dessa foto é que parece que estou segurando uma lança invisível em cada mão!


    O povo dos arredores costuma desenterrar as rochas para que sejam formados reservatórios naturais de água na impermeável superfície cheia de buracos. Esses reservatórios são chamados de tanques, e armazenam água vinda diretamente da chuva. Eis alguns deles:



    A água fica esverdeada por cima devido ao lodo que se forma, mas pode ser consumida sem problema algum – bebi dela, e foi a mais pura que já provei.
    A próxima parada foi Fazenda Nova, onde visitamos o Parque das Esculturas. Nele, encontramos grandes esculturas em pedra, retratando principalmente figuras típicas da cultura pernambucana. Assim que vi essa estátua abaixo, logo pensei: “Vou tirar uma foto em cima da cabeça dela!” Sempre que vejo uma estátua, penso em ser fotografado na cabeça dela – o mesmo já pensei com relação à Estátua da Liberdade e ao Cristo Redentor.


    O trecho da rodovia que vai do trevo do Lampião ao teatro de Nova Jerusalém tem mais buracos que a superfície lunar. Como a pista não é muito movimentada, você se diverte driblando as crateras com o carro à toda velocidade. É divertido, mas um tanto perigoso. Só os turistas que vão assistir à Paixão de Cristo é que não se divertem jogando o carro para os lados entre os buracos, pois estes são tapados com qualquer revestimento (barro, talvez) que dure enquanto durar o espetáculo no maior teatro ao ar livre do mundo – alguém precisa avisar ao Google Earth que mande um satélite fotografar o local, com maior resolução!